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5 de Junho de 2020

Procuram-se estudantes

Além do mico-leão-dourado e do lobo-guará, outro mamífero tropical parece caminhar para a extinção

Thais Mello, Advogado
Publicado por Thais Mello
há 6 anos

Procuram-se estudantes

Diz-se que uma espécie encontra-se ameaçada quando a população decresce a ponto de situá-la em condição de extinção. Tal processo é fruto da exploração econômica e do desenvolvimento material, e atinge aves e mamíferos em todo o planeta. Nos trópicos, esse pode ser o caso dos estudantes. Curiosamente, enquanto a população de alunos aumenta, a de estudantes parece diminuir. Paradoxo? Parece, mas talvez não seja.

Aluno é aqueleque atende regularmente a um curso, de qualquer nível, duração ou especialidade, com a suposta finalidade de adquirir conhecimento ou ter direito a um título. Já o estudante é um ser autônomo, que busca uma nova competência e pretende exercê-la, para o seu benefício e da sociedade. O aluno recebe. O estudante busca. Quando o sistema funciona, todos os alunos tendem a se tornar estudantes. Quando o sistema falha, eles se divorciam. É o que parece ocorrer entre nós: enquanto o número de alunos nos ensinos fundamental, médio e superior cresce, assombram-nos sinais do desaparecimento de estudantes entre as massas discentes.

Alguns grupos de estudantes sobrevivem, aqui e acolá, preservados em escolas movidas por nobres ideais e boas práticas, verdadeiros santuários ecológicos. Sabe-se da existência de tais grupos nos mais diversos recantos do planeta: na Coreia do Sul, na Finlândia e até mesmo no Piauí. Entretanto, no mais das vezes, o que se veem são alunos, a agir como espectadores passivos de um processo no qual deveriam atuar como protagonistas, como agentes do aprendizado e do próprio destino.

Alunos entram e saem da sala de aula em bandos malemolentes, sentam-se nas carteiras escolares como no sofá de suas casas, diante da tevê, a aguardar que o show tenha início. Após 20 minutos, se tanto, vêm o tédio e o sono. Incapazes de se concentrar, eles espreguiçam e bocejam. Então, recorrem ao iPhone, à internet e às mídias sociais. Mergulhados nos fragmentos comunicativos do penico digital, lambuzam-se de interrogações, exclamações e interjeições. Ali o mundo gira e o tempo voa. Saem de cena deduções matemáticas, descobertas científicas, fatos históricos e o que mais o plantonista da lousa estiver recitando. Ocupam seu lugar o resultado do futebol, o programa de quinta-feira e a praia do fim de semana.

As razões para o aumento do número de alunos são conhecidas: a expansão dos ensinos fundamental, médio e superior, ocorrida aos trancos e barrancos, nas últimas décadas. A qualidade caminhando trôpega, na sombra da quantidade. Já o processo de extinção dos estudantes suscita muitas especulações e poucas certezas. Colegas professores, frustrados e desanimados, apontam para o espírito da época: para eles, o desaparecimento dos estudantes seria o fruto amargo de uma sociedade doente, que festeja o consumismo e o prazer raso e imediato, que despreza o conhecimento e celebra a ignorância, e que prefere a imagem à substância.

Especialistas de índolecrítica advogam que os estudantes estão em extinção porque a própria escola tornou-se anacrônica, tentando ainda domesticar um público do século XXI com métodos e conteúdos do século XIX. Múltiplos grupos de interesse, em ação na educação e cercanias, garantem a fossilização, resistindo a mudanças, por ideologia de outra era ou pura preguiça. Aqui e acolá, disfarçam o conservadorismo com aulas-shows, tablets epedagogia pop. Mudam para que tudo fique como está.

Outros observadores apontam um fenômeno que pode ser causa-raiz do processo de extinção dos estudantes: trata-se da dificuldade que os jovens de hoje enfrentam para amadurecer e desenvolver-se intelectualmente. A permissividade criou uma geração mimada, infantilizada e egocêntrica, incapaz de sair da própria pelé e de transcender o próprio umbigo. São crianças eternas, a tomarem o mundo ao redor como extensão delas próprias, que não conseguem perceber o outro, mergulhar em outros sistemas de pensamento e articular novas ideias. Repetem clichês. Tomam como argumentos o que copiam e colam de entradas da Wikipédia e do que mais encontram nas primeiras linhas do Google. E criticam seus mestres, incapazes de diverti-los e de fazê-los se sentir bem com eles próprios. Aprender cansa. Pensar dói.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/794/procuram-se-estudantes-7060.html

127 Comentários

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Peixe você encontra no mar... leão na selva... pássaro no ar...
Estudante em ESCOLA!

Se tomarmos por base o ensino médio e fundamental público do Brasil, que é a base formadora, não temos escolas.
Culpa dos alunos? Dos pais dos alunos? Professores?
Resposta: NÃO! E sim culpa daqueles que foram eleitos para usar da verba destinada a educação com eficiência...

Brasil não é lugar de estudantes por culpa do governo que aliena seu povo para fazer o que bem entender sem sofrer com isso.
É fácil manipular povo burro... povo burro não dá trabalho, não tem memória, ri de tudo, aceita tudo...
Muito triste isso viu... mas vou parar de falar senão vai longe.... continuar lendo

Marcos César... seu comentário é a expressão de sentimento da maioria dos brasileiros que sentem o fardo da má qualidade da educação. Por isso, faço coro com suas palavras.
Mas a resposta está em nós mesmos. continuar lendo

Nem precisava ir mais longe... Já falou tudo amigo. E com muita propriedade. continuar lendo

É isso aí mesmo! continuar lendo

Peço Máxima Vênia para discordar. A culpa reside nos pais e sobretudo no professores. É comodo a posição de culpar os outros, sejam que forem. O aluno precisa de escolas, os estudantes precisão de conhecimento, como ficou tão bem demonstrado no artigo.OS atuais administradores, governantes foram formados por quem? Aprenderam que se colhe e depois se planta, na contramão da história. Enquanto não quebrarmos o paradigma do "governo faz tudo" permaneceremos no mesmo patamar de analfabetismo. Primeiro se muda as pessoas e depois a mudança da coletividade passa a ser consequência. O burro conhece pelas rédeas a capacidade e o conhecimento de seu condutor! Por isto mesmo os "poderosos" permanecem deitados eternamente em berço esplêndido, pois reconhecem os "discurso" dos que apenas falam e apontam os dedos, mas não tem atitude! continuar lendo

Caro Marcelo, fique a vontade em discordar SEMPRE!

Todavia, peço permissão para citar o ocorrido com a China a aproximadamente 50 anos. O governo de lá investiu pesado na educação, com ensino de qualidade e em tempo integral. Resultado: país rico e produtivo. População instruída e capaz de tomar decisões coerentes, de cobrar atitudes daqueles que tem obrigação legal de fazer.

No nosso Brasil o oposto ocorre. O governo abandonou o ensino justamente por saber que é de lá que sai a força para pensar, julgar e crescer. Aqui é o paraíso de quem está no poder.

Eu consigo enxergar isso e creio que voce e a maioria deste site também.
No entanto somos minoria. Aproximadamente 80% da população brasileira nao tiveram oportunidade de crescer intelectualmente, de conhecer um país de primeiro mundo onde as coisas funcionam.

Só que, infelizmente, o peso dos votos deles tem o mesmo peso que o seu, que o meu. O governo nada de braçada no assistencialismo que presta e na ignorância que mantém seu povo.

Concordo que a mudança é interna e depois externa. Mas como mudar internamente sem cultura, ensino, leitura, conhecimento, poder de discussão??? Veja que é impossível.

E quem pode prover isso?? Eu, voce?? Nao, e sim apenas o governo! E sabe quando ele vai querer fazer isso?? NUNCA! continuar lendo

Acho que o problema é um misto de várias coisas. Não só o governo ou os professores ou os pais. Na minha opinião todos têm a sua parcela de culpa. Não penso que falte tanto dinheiro assim na educação. Um professor com doutorado ganha quase R$ 9.000,00 em início de carreira, por 40 horas, em um instituição federal. Talvez seja pouco se compararmos com os salários astronômicos de alguns setores do governo, ou dos outros poderes, mas é bem considerável se levarmos em conta o que 95% dos cidadãos brasileiros ganham por mês. Esses super salários são frutos de ações corporativistas e patrimonialistas exercidas por algumas profissões ou classes. Claro, existe uma desigualdade na distribuição desses salários de forma regionalizada. Mas na minha opinião,o que falta é gestão. Os cargos são ocupados por pessoas que até podem ser doutores e mestres em suas áreas, mas que não sabem nada de administração. Com isso, milhões vão pelo ralo com projetos inúteis e que não levam a lugar algum. Os professores fazem concursos, se qualificam com recursos públicos e depois de graduados não querem dar aulas. Se dizem "pesquisadores"! Não dão o retorno à sociedade que deveriam dar ofertando o conhecimento acumulado aos alunos iniciantes. Para se conseguir um grau de mestre em alguma Instituição pública, na esmagadora maioria da vezes, tem que se ter algum relacionamento com alguém da área. Caso contrário, o projeto é sempre insuficiente. Eles escolhem quem eles querem. Então, penso eu, aí reside a culpa dos professores. Dos pais, acredito que muitos se preocupam em mimar ou desprezar os filhos, ao invés de educá-los. Apoiam atos torpes, dão maus exemplos e depois culpam a escola. O governo é culpado por não efetuar uma gestão decente. Não define metas claras, não escolhe os dirigentes por méritos para as áreas de gestão, e não busca um controle do que realmente busca. A sociedade como um todo é culpada pela manutenção do atual estado de coisas. A preocupação egoísta de se dar bem a qualquer custo é a máxima de nossa sociedade, infelizmente. Vivemos em uma sociedade de valores capitalistas e de consumo, onde isso define o seu caráter. Os corporativismos, os conluios políticos, os interesses econômicos ou de classes...etc. Enfim são tantas variáveis que uma expressão a priori dos fatos, não é capaz de nos apontar de forma peremptória um culpado máximo. Isso é o que penso. continuar lendo

Marcos e demais colegas que compartilham a mesma opinião, com o devido respeito devo discordar. Trabalho em uma escola pública no DF, e sabe o que não tem faltado... VERBA, o dinheiro está lá, o problema tem sido os professores sem a mínima vocação que ingressam na carreira simplesmente pelo salário (que aqui no DF o inicial é em torno de R$ 4000) e acham que ser professor é igual ser técnico adm. um órgão público; gestores condescendentes que se fazem de cegos para as falhas dos professores, até mesmo porque boa parte está envolvido em alguma coisa errada (desvio de verba, merenda, liberação indevida de servidores, etc.). Cito por exemplo a escola onde estou, nas turmas de alfabetização a professora só passa desenho para os alunos (quando não está no face), ninguém intervem, esse aluno sai da turma de alfabetização sem saber ler e escrever, chega a 5ª série, pois não há reprovação nas anteriores, os outros professores vão empurrando esse aluno até ele se formar sem saber assinar o próprio nome corretamente. Quando aparece um para denunciar o fato (como eu fiz) esse é perseguido e massacrado e a denúncia rapidamente "esquecida em uma gaveta", e ainda a comunidade acha que escola é um ambiente com entrada proibida. Esses problemas que eu relatei aliados ao problema relatado no texto acima, estão causando a falência do Brasil, com a tremenda escassez de profissionais. Tem um pouco de responsabilidade dos políticos sim (os desvios são gigantescos e a educação é utilizada para dar cargos aos apadrinhados), mas se a população adotar a escola perto de casa, e cobrar resultados dúvido que o resultado não mude. Minha humilde opinião. continuar lendo

Hoje os professores do ensino público são literalmente proibidos de reprovar um aluno, por pior que ele seja, o pescoço em jogo é o do professor.

O Governo quer estatísticas, mostrar que tem muito aluno no ensino médio, coloca no ar que boa parte da nação já está alfabetizada, números expressivos de alunos no ensino médio.

Não se vê o Governo colocar quantos desses sabem ler, quantos realmente sabem, divulgar aquela pesquisa (que agora não lembro o nome) demonstrando que um aluno de escola particular no último ano do ens. fundamental sabe mais que um aluno do último ano do ens. médio...

Não vejo a mídia divulgar quantos alunos estão regularmente frequentando as aulas, quantos não estão ali apenas para receber o bolsa família ou ter direito à meia passagem e pagar apenas metade nas entradas de diversos lugares.

O menor dos culpados é o professor.

Pouquíssimos alunos do ensino público querem de fato estudar (o contrário em escola particular); no fim do ano o professor passa um trabalho e eles passam de ano... continuar lendo

Marcos César, se a culpa é daqueles que foram eleitos, então, na verdade, a culpa é sim dos alunos, dos pais e dos professores... continuar lendo

Concordo com a opinião de muito aqui, pois apenas culpar o governo e sua falta de investimento na educação não transfere a culpa de cada um. Sou estudante de um curso de Direito e vivo isso diariamente e posso afirmar que aluno é o pior consumidor, pois nunca cobra por aquilo que lhe é devido, afinal quer sempre ir embora mais cedo, festeja quando não tem aula, se o professor facilita, seja no conteúdo ou em prova, está ótimo, se foi mal em prova já sabe que professor complementa nota de aluno com trabalho, afinal, em uma instituição privada se professor não passa aluno não é bom professor. Vejo diariamente que a culpa não está só no governo, ou nos pais, ou nos professores, pois a principal culpa é dos próprios alunos que, acostumados com uma era imediatista e descartável, não fazem valer aquilo que lhes é vendido. Enquanto se colocar a culpa em tudo, menos na preguiça e comodismo dos alunos, não adiantará nada. A solução nunca será colocar a culpa em um só lugar, há sim que existir uma mudança em vários setores, seja eles governo, política educacional, cobrança institucional, políticas pedagógicas, mas terá que existir interesse dos próprios usuários (alunos). continuar lendo

Discordo parcialmente! Se sabemos que o objetivo do governo é forma pessoas alienadas e pouco instruídas, temos que ser agentes da mudança. Em geral, o que se nota é uma conivência de ALUNOS (e não estudantes) com isso. Título vem mais fácil do que o conhecimento mencionado no texto. Nós e nossa velha mania de culparmos o governo, QUE NÓS ELEGEMOS! continuar lendo

A verdade é que o ensino superior se tornou mercadoria de produção em massa. Como dito no texto, quantifica-se, mas não se qualifica. continuar lendo

Pior que é verdade. Tenho colegas que vão para faculdade mas não querem que os professores deem aula. Depois que formam e destroem alguma coisa ficam culpando a instituição de ensino. continuar lendo

A crítica do texto é tão contextualizada dando a entender que parece seu/sua autor/autora coletou os dados do meu próprio ambiente de estudos.
Levarei este texto para ser debatido em sala de aula e acredito que, pelo menos, fará com que nós - estudantes - e professores tenham um pensamento voltado para o aprendizado no século XXI. continuar lendo